11. abril – 16. junho 2013

Anja Ganster - Deslocamento

Anja Ganster

Deslocamento

Água. Fórmula química H2O. O ser humano é composto de pelo menos três quartos de água . O cérebro mesmo de 90%. Água é também e acima de tudo um elixir, sem o qual a vida não seria possível. Apesar da superfície do planeta ser composta de mais de dois terços de água, a água potável é um bem precioso e cada vez mais raro. A violência da água é legendária: nós pensamos no desgaste milenar das formações rochosas, na violência devastadora de um tsunami ao atingir o continente.  Simultaneamente ela é romanticamente idealizada. Casais na praia, pôr do sol, o barulho do mar. Alguma pergunta? Óbvia torna-se esta força da natureza em locais como as Cataratas do Iguaçu, na fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai. Anja Ganster, em uma de suas viagens ao Brasil, visitou entre outros lugares as cataratas; o resultado desta visita são filmes, fotografias e instalações. As fotografias mostram “Retratos d’água”, movimentos congelados que parecem retratos fantasmas, quase incompreensíveis e fugidios, como se fossem artificiais e não emprestados da natureza. Algo de um retrato ganham as fotos através da forma, semelhante a um busto. As proporções não se deixam mais definir  -  o close-up as despoja de sua conexão.

Na instalação Deslocamento, pela primeira vez entra a artista, como extensão dos seus conceitos pictóricos, no espaço: vídeos das águas em diferentes pontos das cataratas, preferencialmente aqueles em que a água não tem a velocidade mais alta, são projetados em elementos de madeira brancos construídos tectonicamente em camadas. Preparadas na maioria em formas verticais claras, escalonadas em profundidade, sobrepostas visualmente como em um cenário.  Ao mesmo tempo, os ruídos esperados  foram ocultados, e uma música foi criada especialmente para a instalação em  estreita sintonia com a artista . Deslocamento projeta a água omnipresente em estruturas construídas que por um lado se aproximam da arquitetura das cataratas e que por outro lado apelam a arquitetura urbana brasileira e a estética  da modernidade.  Coloque-se alguém  no  topo de um dos edifícios do centro de São Paulo, que compreende cerca de 2209 km2 e 20,5 milhões de habitantes, e até o horizonte se verá literalmente nada além de terrenos construídos. A vivência desta selva de pedra com arranha-céus, “shopping centers” e todos os seus cantos sujos, a experiência física da maior metrópole do hemisfério sul em contraste com a natureza magnífica do país, oferece referências para a experiência da instalação. Por outro lado, o fluxo das águas torna-se subitamente algo abstrato, assim como os elementos da instalação construída  não podem mais ser percebidos como uma estrutura claramente reconhecível. A imagem  que se apresenta ao espectador, está fragmentada em muitas partes, projeções de imagens bidimensionais e objetos tridimensionais  se encontram, se entrelaçam e criam uma nova imagem que abre a associação: luzes aparecem, o ritmo das imagens cria uma frequência cardíaca e prisioneiro de uma estrutura hipnótica de imagens, o espectador torna-se o centro da instalação. A desconstrução das imagens leva a uma nova construção onde se confundem definitivamente as fronteiras entre o interior e o exterior. Um redemoinho gigantesco de vida encontra aqui o espectador, a experiência existencial de vivenciar a própria identidade em um lugar estranho. Apenas uma pequena parte do fluxo das águas pode ser vista. Desta maneira o fluxo, o movimento é quase coreograficamente reproduzido, o reflexo da luz, a  dança da luz sobre as águas animam o elemento, que liberto do contexto das cataratas, torna-se independente.

Um dos motivos da visita de  Anja Ganster ao Brasil foi acompanhar o caminho de vida de Walter Wüthrich, fundador da Fundação Brasilea em Basel e colocar-se numa jornada de busca. Deslocamento refere-se a transferência em uma cultura diferente e desconhecida , a experiência do outro em si mesmo, mas também ver e registrar um outro mundo.

Mesmo as pinturas se relacionam com estes tópicos. Isso é mais evidente no grande panorama de  São Paulo. Como em uma névoa da manhã se descortinam os contornos da cidade na tela, apenas algumas partes  são mais nítidas e realçadas com cores mais fortes. Como em um sonho ou uma visão captura-se essa paisagem urbana sem realmente percebê-la totalmente. A evidente expansão anárquica da arquitetura urbana encontra-se aqui com a proliferação de uma natureza tropical exuberante na América Latina - uma em ascensão, a outra em declínio. Em contraste está a paisagem urbana do Rio de Janeiro: a luz quente da metrópole à noite faz a paisagem ao redor brilhar, (inclusive) água e montanhas que emolduram a vista. Aqui misturam-se cidade e natureza, que combinam-se de forma harmoniosa e tornam-se um tubo de ensaio único, cheio de vida.

A arquitetura contemporânea e a construção de uma modernidade sul-americana repleta de franqueza, luz e acentuada por manchas de cores, refletem na pintura a situação de dentro e de fora e quebram repetidamente a estrita separação (O:T..prédio da bienal, 2012). Anja Ganster ama estas situações, pictoricamente penetra nelas e abre a arquitetura através de múltiplas reflexões, sobreposições óticas e da luz, que penetra de fora para dentro e de dentro para fora.  Uma transparência e uma leveza emanam destas imagens tão complexas e organizadas que só se resta admirar. A transformação das imagens da realidade em uma construção pictórica  possibilita um olhar mais profundo sobre a estrutura do espaço, luz, movimento e tempo, que estão dobrados e compactados na imagem.

Na obra “Rua augusta 320/1”  visualizamos um espaço caoticamente organizado, repleto de móveis e coisas de uso cotidiano, não um espaço belo, mas um belo exemplo de área habitada. Ao mesmo tempo visualizamos deste espaço um pátio interno - a separação entre dentro e fora está óticamente dissolvida e ninguém está em posição de dizer, o que se encontra antes ou depois do pano de vidro, assim estão os elementos interligados na imagem.  Em primeiro plano, plantas crescem ligeiro (em altura) e a iluminação define muitos detalhes, mas também reluzentes pontos cegos, como um holofote que ilumina um cenário.

Também o teatro é um tema; em “Bühne (Teatro Curitiba 1)” observa-se dos bastidores um palco contra o auditório, o entanto o olhar é obstruído por cenas e vários adereços, banhados em luz dourada, desertos.  O espaço dos acontecimentos está em um limbo - na expectativa do que vai acontecer e do que já aconteceu. O tempo permanece praticamente parado - momentos que Anja Ganster repetidamente capta em suas pinturas.

Deslocamento - a sensação do estrangeiro, do observador, que talvez seja até invisível, a sensação de deslocamento de um lugar para um lugar estranho, que permitem (a alguém) ver e perceber as coisas que para os outros estão inacessíveis. Anja Ganster oferece as essas sensações uma moldura tangível, nos deixa participar não só em uma viagem geográfica mas também uma viagem no tempo, em uma jornada repleta de maravilhas, que o nosso mundo e a arte de Anja Ganster nos oferece.

Martin Stather

Tradução: Cecy Renate de Carvalho

 

 

Horários especiais:
Domingo, 21. Abril 2013, 14 - 18 horas
Art Basel: 12.-16. Junho 2013, 14 - 18 horas